Nico Ex
Ah… o Nico. Quem olha ele hoje, jamais imagina a história que esse cavalo carrega.
– Nico Ex
– Puro Sangue Inglês (PSI)
– Nascimento: 20/02/2015
– Filiação: Trappe Shot x Ghost Dancing
– Tordilho
História

A trajetória do Nico nunca foi “comum”. Aos 12 meses, ele já valia 210 mil dólares em um leilão. Genética impecável, uma promessa das pistas… que nunca chegou a correr.
Após anos servindo apenas para reprodução, o destino o levou a um centro de adoção. E foi ali que a história dele se tornou um labirinto de começos e fins.
Foi adotado para o salto e devolvido. Alegaram um problema na coluna que nunca foi provado. Foi adotado para trilha e, novamente, devolvido sem explicações. O Nico estava virando um “problema” sem solução.
Até que, em julho de 2025, ele apareceu na tela do celular do meu marido: — “Olha esse cavalo, o que você acha?”
Eu, que nem sou tão fã de tordilhos, respondi com um despretensioso “pode ser”.
Quando chegamos para vê-lo, a recepção foi um caos: ele desceu do trailer empinando, arredio, transbordando uma braveza desesperada. Mas, por algum motivo, decidimos montar.
E aí, o choque.
Montado, o Nico era um sonho. Trote, galope, uma leveza inesperada. Era um cavalo macio, confortável, que parecia sussurrar: “eu só preciso de uma chance”.
E foi assim que ele veio para casa.
Mas não foi bem assim
No início, parecia que teríamos paz… mas a calmaria durou pouco. Logo, a verdadeira face do trauma começou a aparecer.
O Nico se transformou. O cavalo que era “um sonho” montado deu lugar a um animal extremamente reativo e perigoso. Ele não era apenas difícil, ele estava em guerra. Empinava contra os ferradores, tentava morder qualquer um que se aproximasse e entrava em pânico por nada, disparando sem rumo.
A confiança desapareceu. Trotar era um convite ao descontrole. Galopar? Um risco que não podíamos correr. Em dias de chuva, a energia dele se tornava um pesadelo incontrolável.
Mesmo no chão, o perigo era constante. Na guia, ele empinava e corcoveava com uma fúria que assustava. No haras onde estávamos, na Califórnia, ele vivia confinado: passava o dia todo na baia, com apenas 20 minutos de sol em um piquete de areia seca. Aquele isolamento era o combustível para o caos.
O Nico não era mais um cavalo. Ele tinha se tornado um “terrorista”.
Mas nem tudo estava perdido
Foi por outras razões que decidimos nos mudar para o Texas. Encontramos uma hípica com uma filosofia completamente diferente: cavalos soltos no pasto, das 7h30 às 16h30. Liberdade real.
Mandamos os cavalos primeiro e chegamos 15 dias depois. Quando eu entrei naquele piquete, não pude acreditar no que vi. Aquele não era o mesmo animal. O Nico estava doce, carinhoso, calmo. Estava feliz.
Aquele cavalo arredio agora vinha ao meu encontro no meio de um pasto enorme. Montei com o coração na mão, mas ele apenas… fluiu. Trotou, galopou para os dois lados, relaxado. Chegamos até a saltar — o mesmo cavalo que, semanas antes, nem permitia o galope.
Nesse meio tempo, o primeiro adotante dele me escreveu: — “Esse cavalo não serve para nada. Ele dispara, foge do nada, é impossível saltar com ele.”
Eu apenas escutei. Hoje eu entendo: ele nunca conheceu o verdadeiro Nico.
O Nico é a prova viva de que, muitas vezes, o “problema” não é o cavalo. É o ambiente, a rotina, a falta de liberdade. Quando você ajusta o mundo ao redor dele, a essência do animal floresce. Aquele cavalo que era um pesadelo na Califórnia tornou-se o cavalo dos meus sonhos.
Mais do que isso: o Nico finalmente encontrou seu porto seguro. Ele nunca mais será devolvido. Porque aqui, uma vez na família, é para sempre.